Sinto meu corpo cansado. Estou indisposta apesar de ter dormido mais de 12 horas. A depressão dá os seus sinais. É segunda-feira, pior dia para mim. Significa que contarei dia após dia até chegar sexta-feira, à noite, e me livrar dos horrores da redação. São 11h30. Já perdi a maldita reunião de pauta. É uma merda. Parece um grupo de teatro amador. Todos os atores desempenham seu papel muito mal. Cada um mostra sua persona. Porém, muitas vezes, as máscaras caem. É um espanto! Deparamos com um colega totalmente diferente da sua usual representação. Já perdi mesmo a reunião. Volto a dormir ao som da ópera Madame Butterfly, com Maria Callas. Minha vida está tão trágica quanto as óperas. Sempre invento uma desculpa para essas reuniões. Não gosto deste jogo escondido de esgrima, com inúmeros floretes assassinos no ar.
Acordei tarde, quase 14h. Tomei banho e fiz aquilo que eu odeio há algum tempo: ir à sucursal de Brasília do jornal Mercúrio. Eu me sinto uma estrangeira no meio de alpinistas sociais, farsantes, reprimidos sexualmente que não saem do armário e muitas mulheres preocupadas demais com a minha vida, meu trabalho, minhas fontes...
Não me enquadro naquela escolinha em que recebemos notas como se ainda fôssemos crianças e tivéssemos que apresentar o boletim em casa. E o "professor" não é sempre justo. Usa outros critérios além do desempenho profissional. Nesse jogo, sempre perdi.Nunca dormi com nenhum chefe em toda a minha carreira. Já outras...
O problema é que a "professor" que nos avalia é bem diferente daqueles da nossa infância. A apreciação é feita por chefes que nem sempre usam critérios objetivos e éticos. Outros componentes podem entrar, como uma repórter cortejar um coordenador, dormir com o secretário de redação, até chegar ao diretor da sucursal. Há especialistas nisto. Selena era uma delas. Teve um caso com um chefe, casado, mas acabou se unindo matrimonialmente com um repórter. Que coisa cafona, mas o convite foi assim! Coitada, seu projeto de subir socialmente naufragou! Seu marido a trocou por uma modelo.
Antes de conhecer Selena e saber quem ela era, disse aos meus colegas que este nome não cheirava bem. Não é que eu acertei! Ela implicava comigo o tempo todo. Falava, pelas minhas costas, que eu bebia demais, que meu corte de cabelo curto era para mulheres bonitas _como se ela fosse uma beldade com aquela face enrugada precocemente, olhos de rato e o cabelo parecendo bombril, com luzes feitas em salão de quinta_ e indagou-me se eu não ficava deprimida, estando gorda, ao ler revistas tipo Boa Forma, Pense Leve, Dietas Já e outras do mesmo gênero.Lamento desapontá-la Selena, mas eu perdi 22 quilos. Joguei-lhe uma praga. Deu certo. Ela não conseguia permanecer por muito tempo nos vários jornais. Casou-se com um diplomata e vive hoje fora do Brasil, na África.
Acabo de chegar de uma longa viagem pela Europa: 20 dias na Itália porque não me canso de Roma, Capri, Veneza e Florença; e mais um mês em Londres. Adoro a cidade da rainha. Graças a um amigo gay e diplomata, conheci uma cidade que os turistas brasileiros jamais imaginam existir. Clubes fechados e restritos aos connaisseurs. Não possuem placa ou qualquer sinalização na porta indicando que ali funciona uma disco, um pub, um bar para sadomasoquistas e outras infinitas possibilidades. Algumas vezes, esses clubes mudam de lugar, mas os vips sempre sabem onde é a nova rota.
Foi uma das melhores viagens de minha vida. Assim que entrei no táxi, em Londres, em direção a Heathrow, senti uma vontade enorme de chorar e um medo terrível se apossou de mim. Enquanto aguardo meu vôo, comprei maquiagem no Duty Free e fui jantar em um bom restaurante. Uma taça de champanhe e salmon com fritas, encerrando com um belo capuccino. Detesto comida de avião da classe econômica.
Ao sentar na minha poltrona, ao lado de um casal, comecei a chorar sem parar. Eles eram ingleses e manifestaram paciência para ouvir minha triste história. Estive no exterior e não me sentira nem um pouco estrangeira. Agora, na volta ao meu país e ao nojento e asqueroso emprego no Mercúrio, inicia-se a sensação de que sou uma forasteira.
Tanta infelicidade me lançou em um processo de autodestruição. Consegui a façanha de ficar 22 quilos acima do peso. Sempre fui magra, mas o Mercúrio engorda. Muita gordura resultante dos "anestésicos" que usava: bebida alcoólica, exagero em doces e massas, ansiedade e um vazio que nada nem ninguém preenchiam. Sabia que precisava parar com tudo, sobretudo com o asfixiante trabalho naquele jornal, que eu nunca lia e somente passei a fazê-lo quando fui contratada. Era "o maior jornal da América Latina", diziam os inúmeros comerciais nas TVs e rádios.
Naquela época, o Mercúrio tinha prestígio, apesar das maluquices da filha do dono do diário, a temida e também odiada dona Rose. Claramente bipolar ou até psicótica, tinha ondas de amor e ódio por seus assistentes. Muitos acabavam na sua cama. O caso durava pouco. O infeliz era despachado para bem longe após o final do affair. Um estacionou no Japão.
Na redação, a primeira pessoa que encontrei foi Bob, que acabara de ser promovido a chefe. Foi mais um farsante que conheci. O antigo diretor o detestava e o premiava com péssimas avaliações. Bob passou a me bombardear. Nem ligava mais para o trabalho. Conscientemente, preparava minha saída.
O dia e a oportunidade certos chegaram numa terça-feira à noite. O caolho Bob me telefona às 22 horas para me informar que eu passaria a ser responsável pela cobertura de uma área que detesto e que possui uma sala de imprensa mais parecida com um manicômio. Só faltava uma camisa-de-força.
Recebi aquela notícia com tanto alívio que chorei ao telefone falando com aquele imbecil. Chegara a hora de morrer para renascer de novo. Pedi demissão. Pouco tempo depois, ligou a bicha Wandeca, meu grande amigo. Ele estava nervoso e preocupado. Foi logo berrando "O que você aprontou? O homem quer você, aqui, na redação, às 10 horas e sem atraso". Eu disse:"Calma Wandeka! Eu não lhe avisei que qualquer dia pediria demissão. Acabei de fazê-lo." Acrescentei que não iria a nenhuma reunião, não colocaria mais os pés naquela redação e se ele (Wandeca) quisesse me ver, que me fizesse uma visita.
Wandeca perguntou seu eu estava bêbada, drogada ou se tinha pirado de vez. Após muitas gargalhadas, expliquei que tinha recuperado minha razão e que drogas não eram a minha especialidade. Wandeka era entendido no assunto.
A bicha querida acabou concordando comigo. Wandeka mandou um motorista do Mercúrio pegar minha carta de demissão no dia seguinte. Arrogante que é, sei que dona Rose me chamou de ingrata por abandonar o seu glorioso Mercúrio sem dar satisfação a ninguém e recusar os pedidos para conversar com o diretor para ficar.
O mais difícil começou no dia em que meus laços foram totalmente quebrados com aquela forma horrenda de fazer jornalismo. Pediram que apresentasse um atestado de sanidade física e mental. Essa Dona Rose acreditava que eu estava tendo um surto ao sair do jornal. Eles estão acostumados a demitir. Porém, quando uma profissional conceituada e escolhida por eles para ser correspondente no exterior durante um ano como eu realmente fui decide mandá-los às cucuias, a cúpula a classifica de desiquilibrada. Se dependesse de Dona Rose, nós teríamos que pagar uma espécie de tributo por ela nos deixar trabalhar no jornal.
MARIA CALLAS CANTA MADAME BUTTTERFLY, DE PUCCINI "TU,TU,, PICCOLO IDDIO"
Eu estava finalmente livre, depois de quase dez anos de Mercúrio. Eu precisava reinventar minha vida. Quem era Suzana Barreto Viotti? Não imaginava a resposta. Sabia que meu caminho não seria fácil, mas certamente mais saboroso do que trabalhar em um ambiente onde os próprios chefes jogam seus repórteres uns contra os outros, estimulando uma competitividade pouco produtiva. Peguei do Mercúrio tudo que me serviria para continuar na estrada do jornalismo. Quando saí, abandonei um enorme fardo que carregava nas costas. Era o jogo do Mercúrio que não prestava para mim.
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