segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

ULTIO ULTIONIS - A VINGANÇA DE SUZANA- O JOGO DE PODER

CAPITULO 5

Halloween Witch. Becareful! Witches are always out at WITCHING HOUR, 12:00am.

Atravessei a minha adolescência no Rio de Janeiro. Passei no vestibular para a UFRJ. Porém, acabei estudando da Universidade de Brasília. Os anos 70 são inesquecíveis. Eu adorava passear em Copacabana. Como sempre estava entre os três melhores no simulado que meu colégio fazia todo mês. Meu pai recebia, inevitavelmente, o reembolso da mensalidade. É claro que ele me dava o dinheiro. Eu adorava torrar em boutigues como Lelé da Cuca, Liloca e Smuggler. Morar naquele apartamento, na Avenida Atlântica, me trazia recordações deliciosas.

Tomei um farto café da manhã. Arrumei minha “merenda” para aquele que seria o meu primeiro dia no bunker da Gazeta para montar quase um novo jornal. Frutas, barras de cereais, leite de soja e queijo light. Esse refúgio funcionava em um hotel, no Leblon. Na primeira semana, eu ainda poderia voltar para casa. Já na etapa seguinte, eu teria que mudar para uma imersão total, com mais 15 profissionais de diferentes áreas.

Peguei um táxi. A sala de reuniões era bastante confortável. Logo no primeiro dia, Alan me disse para avaliar e dar sugestões sobre todo o material da Sucursal de Brasília, incluindo a coluna de política. Cheguei a ficar 48 horas diretas, tomando Pepsi Light e café.

Ali não havia amadores, exceto eu. Todos tinham enorme experiência em projetos gráficos, edição e, como esperado, dois especialistas em Web designer. Ganhei uma tonelada de papel para ler as matérias produzidas por Brasília e as versões dos concorrentes. Não posso negar que fiquei com o ego um pouco maior, mas tratei logo de me lembrar que, no jornalismo, um dia se está no topo e, no próximo, está-se no olho da rua.

Sabia que eu participaria, de alguma forma, na operação desmonte da sucursal de Brasília. Por que faria uma análise de toda a produção, avaliando trabalho de cada repórter, incluindo a coluna política? Por isso mesmo, confesso que não fui santa e ultrapassei o sinal vermelho. Eu posso ser boa, mas sou terrível quando sou má, frase atribuída à cantora Maysa. O diabo surge. E ele apareceu com força assim que peguei a pasta de Melissa, uma baiana que inferniza minha vida há muito tempo.

Já havia me vingado quando a fiz perder seu único amor após a separação de Gilberto, seu ex-marido, um jornalista que somente sabe fazer uma coisa: publicar dossiês de corrupção que recebe prontos. Nada mais. Sérgio, um colega de faculdade, retornou ao Brasil e ao jornalismo. Estava doida nesse período, mas ele ganhava de mim. Era inconveniente. Tirava a roupa em festas e caía na piscina. Ele tornou-se grudento. Fazia-me mal ouvir fofocas sobre mim que insistia em me trazer. Acho que ele tinha uma queda por mim... Só de pensar, isso me causa arrepios.

Melissa é de classe baixa. Não tem pedigree. Ela queria tudo meu: minhas roupas, meu dinheiro para minhas viagens pelo mundo, meus homens, minha cultura, os idiomas que falo, minhas fontes, meu coiffeur, minhas amigas. Sou vingativa. E o ditado diz: a vingança é prato que se come frio. Diria que se come gelado.

Comecei a falar para Melissa que Sérgio a achava interessante. Pura mentira. Ele nunca havia notado a vira-lata como mulher, mas eu o manipulei direitinho. Forcei saídas noturnas juntas. O livro "Relações Perigosas", de Choderlos de Laclos, é um dos meus preferidos. Adoro o maquiavelismo amoroso e erótico contido nele. Eu me sentia uma Marquesa de Merteuil e Sérgio era meu Visconde de Valmont. Ele apenas não sabia disso. Coloquei milhões de caraminholas na cabeça dela. Afinal, para um pé-sujo como ela, Sérgio representava um príncipe. Ela nem perfume usava, imagine maquiagem! Ela comprou roupa nova para o aniversário do Sérgio. Adivinhe onde: na Rabo de Saia, que nem sei se existe mais. Era a minha loja preferida e cujas roupas ela sempre quis ter, mas não tinha o dinheiro suficiente para comprar uma coleção inteira. Tenho ainda um guarda-roupa só com peças dela.

A minha estratégia deu certo. Sabia que Sérgio nunca amaria uma mulher como Melissa, sem berço na burguesia, refinamento nenhum, até mesmo intelectual. Eu e ele nos identificamos muitos por que somos burgueses assumidos. Ele se divertia dando endereços caríssimos e cafonas para colegas jornalistas que viajavam, pela primeira vez, ao exterior. Sabia que Melissa seria um lazer enquanto ele não voltasse para os braços de uma diplomata americana, que tem um pai Senador. Imagine se Sérgio deixaria Chloé por uma Melissa sem classe e oriunda do proletariado. Nem em pesadelo! Sérgio era metido a aristocrata, como se fosse descendente de D. Pedro II. Apesar de toda a sua loucura, é um homem extremamente gentil e sofisticado.

O momento da vingança chegou quando os dois foram de férias para a Itália. Confesso que tive momentos de felicidade mórbida. Apenas aguardava o momento em que Melissa seria abandonada . E foi. Sérgio disse que estava confuso e foi se encontrar com seu verdadeiro amor, na Suíça. A própria Chloé mandou a passagem aérea para Genebra. Eles se casaram. Foi o maior pontapé na bunda que a perversa Melissa ganhou. O mais engraçado estava por vir.

Melissa me convidou para tomar um vinho na sua casa. Descobri que ela trouxe dezenas de latinhas de um patê ordinário, vagabundo, encontrado em qualquer supermercado ou mercearia de Roma... Ela me serviu esse patê horrível como se fosse caviar, uma iguaria dos Deuses. Ouvi suas lamentações, com esforço enorme para não rir. Afinal, escrevi esse roteiro. O filme foi dirigido por mim.

Por mais que ela me faça mal, tenho pena dela. Nunca será o que sonha ser. Late como um cachorro bravo, mas é só falarmos mais duro e ela se encolhe à sua insignificância. Não consegue chamar a atenção como fêmea em momento algum. É uma desgraça para qualquer mulher. Recentemente, espalhou em Brasília que eu usaria a desculpa de ter fibromialgia para comprar morfina e pegar “um barato”. Desisti de processá-la quando ela me disse ao telefone:- Sou mais importante que você atualmente. Ora, ela perdeu todo esse tempo querendo ser Suzana Barreto Viotti. Não chega nem aos meus pés.

Certamente, Melissa não ficaria no olho da rua. Ela é protegée de uma condessa descalça brasiliense. Essa senhora, que tem um jeito masculino mesmo usando uma saia curta e saltos altíssimos, possui uma corte de bajuladores. Quer ser adulada, principalmente por mulheres. Os únicos homens são gays, mesmo sendo casados. Estão no armário. Paulo sabia que eu não aceitaria qualquer função na sucursal de Brasília se ele conservasse a medonha Melissa. Houve um tempo, há anos, em que pensei que eu e a condessa fôssemos amigas. Enganei-me. Ela é tão carente, apesar do esforço em se mostrar como uma mulher segura, precisa de um cordão de paparicadores. Seus relacionamentos amorosos são um desastre total. Condessa, para que tanta terapia se você continua com cafajestes? Um dos seus últimos maridos, um ministro de Estado, cansou de me cantar em um período em eu e ela nos falávamos. Eu respondi: não sei o que sua nova mulher viu em você. Mesmo assim, tenho afeto e carinho pela condessa, mas lamento que ela viva uma fantasia. Seus amigos não são verdadeiros. Estão interessados naquilo que ela poderá fornecer a eles, desde um emprego em um ministério, uma assessoria em alguma estatal ou uma vaga na Gazeta. Esse último trunfo ela perdeu. Paulo não gosta nem um pouquinho dela. Seus amigos e protetores tomaram novos rumos. É claro que a carregaram junto.

Melissa realmente não nasceu para o grand monde. Seu destino é a feira do Guará (Mercado que funciona em uma das cidades satélites de Brasília. Vende-se de tudo, de artigo para umbanda, galinha viva, produtos nordestinos, roupas, panelas, pimentas, peixe). Acho um horror. Porém, confesso que vou à "Feira do Paraguai", local permitido pelas autoridades que vende eletrônicos, relógios, muitos falsos, DVDs e CDS piratas, tapetes persas, bebidas importadas, cópias medonhas de bolsas Louis Vuitton, roupas indianas... Não sou a única freqüentadora de classe média alta. Há deputados, senadores, socialites e integrantes do alto escalão do governo Lula que já puseram seus pés lá. É um verdadeiro bazar.

Agora, o destino me colocava nas mãos uma outra chance de desforra. Melissa, depois de trabalhar para o governo petista, voltou para a Gazeta, cobrindo a área em que ela tinha sido assessora de imprensa. Acho isso uma tremenda falta de ética! Merecia atenção dos sindicatos de jornalistas e da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), mas essas entidades estão mais interessadas em fazer política. De um universo de 50 mil jornalistas, apenas 3.500 votaram nas últimas eleições da Fenaj. Sou sindicalizada por uma questão de consciência, mas não me sinto representada pela Fenaj, que apóia projetos do PT que beiram o autoritarismo, como as propostas de criação de conselho de jornalismo e de um órgão para reger os meios de comunicação. Os dois projetos, felizmente, naufragaram. Afinal, stalinismo está fora de moda há muito tempo, mesmo nos partidos comunistas e socialistas europeus, mas ainda sobrevive em alas do PT.

Usei minha inteligência e criei uma nova Melissa. Apontei falhas horrorosas no trabalho dela, comparei a excelente cobertura de outros jornais, como Estado de São Paulo e Valor. Meu diagnóstico: muito dinheiro em uma repórter especial que fazia feijão com arroz. Isso não basta. Eu sabia que estava assinando, indiretamente, a demissão dela.

Melissa merece. Não sou nem um pouco santa. Estava sendo sacana com uma mulher que é capaz de tudo para subir na carreira. É uma filha da puta, sem humor ou charme. Mas o mundo dá voltas, não é mesmo?

Nada como um dia atrás do outro. Acabamos ficando um mês no bunker. Paulo, o publisher, anunciou as reformas do jornal, que circularia dentro de três meses com tudo reformulado. Vieram as demissões. Melissa e um outro idiota de Brasília, que não tem sequer uma fonte e somente escreve com base em relatórios, estavam no olho da rua. Queria comemorar.

A secretária de Paulo me chamou. Ele queria me ver o mais rápido possível. Voei até à sua sala. Ele percebeu que eu estava radiante de felicidade.

-O que houve, Suzana, para tanto frescor?

-Estou feliz.

-Eu desconfio...Você gostou da demissão da Melissa?

-Amei. Se é para jogar o seu game, eu já comecei. Vou tomar um kir royal hoje.

-Vou sair depois do Jornal Nacional. Vamos juntos para um ótimo lugar que conheço.

-Está bem. Preciso conversar com você, Paulo. Falei longamente com André e há coisas que eu não sabia ou ficaram no plano inconsciente. Você é o chefe supremo, mas não quero uma relação com base na mentira ou na farsa.

-Não faça drama. Você tem talento para diva. Deve ter sido cantora de ópera em outra encarnação.

- É perigoso beber com você pelo que André me contou. Não me lembrava. Sou uma profissional e nunca tive relacionamentos em redações, muito menos com chefes. O dono do jornal está fora de cogitação. Vamos tentar ser amigos?

-Suzana, você é muito neurótica. Eu gosto e respeito você. Fique calma.

-Por que você me chamou?

-No próximo mês, você vai ficar cada semana em uma editoria. Quero que saiba como funciona. Depois você segue para Brasília. Você vai ser minha interventora.

-Você ficou louco? Sou polêmica, falo aquilo que penso. Chamam-me de doida.

-É disso mesmo que preciso. Não se preocupe. Depois de encerrada a limpeza e a montagem de uma nova equipe, você poderá escolher se quer ser mesmo diretora da sucursal ou qualquer outra coisa. Preferiria que você ficasse, pelo menos, dois anos. Depois disso, pode ser aquilo que desejar. Gostaria que voltasse para o Rio. Preciso de você aqui.

-Acho que não preciso de um kir royal, mas de vários dry martinis. Porém, já sei que não é seguro beber ao seu lado, vou ficar com minha Pepsi. Você se esqueceu de me perguntar se eu quero a sua oferta? Discutiremos isso logo mais, à noite. Sem porre nenhum.(risos)

-Venha à minha sala para assistirmos ao Jornal Nacional. Depois, vamos juntos no meu carro.

-Você me deixa dirigir aquele BMW parecido com um Porshe?

-Você, no fundo, ainda é uma menina. Você dirige na ida. Na volta, eu retomo o volante.

-Já disse que não vou beber, mas vou pedir o prato mais caro do restaurante, de preferência, uma lagosta. E vou voltar de táxi caso você se exceda no champagne.

-Amanhã é feriado. Sei que você não trabalha.

-Você é um homem cheio de más intenções...(risos) Voltamos os dois de táxi. Não deixarei você dirigir bêbado. Já vi sua compulsão por garrafas caríssimas de champagne.






BLONDIE CANTA HEART OF GLASS


"Heart Of Glass"

Once I had a love and it was a gas
Soon turned out had a heart of glass
Seemed like the real thing, only to find
Mucho mistrust, love's gone behind
Once I had a love and it was divine
Soon found out I was losing my mind
It seemed like the real thing but I was so blind
Mucho mistrust, love's gone behind

In between
What I find is pleasing and I'm feeling fine
Love is so confusing there's no peace of mind
If I fear I'm losing you it's just no good
You teasing like you do

Once I had a love and it was a gas
Soon turned out had a heart of glass
Seemed like the real thing, only to find
Mucho mistrust, love's gone behind

Once I had a love and it was divine
Soon found out I was losing my mind
It seemed like the real thing but I was so blind
Mucho mistrust, love's gone behind

Lost inside
Adorable illusion and I cannot hide
I'm the one you're using, please don't push me aside
We could've made it cruising, yeah

Yeah, riding high on love's true bluish light

Once I had a love and it was a gas
Soon turned out I had a heart of glass [radio version]
Soon turned out as a pain in the ass [album version]
Seemed like the real thing only to find
Mucho mistrust, love's gone behind


Heart Of Glass (tradução)
Blondie
Composição: Blondie
Uma vez eu tive um amor e era um "estouro"
Logo mandei embora, tinha um coração de vidro.
Parecia como a coisa verdadeira,
Apenas para descobrir muita desconfiança.
O amor ficou lá atrás...

Uma vez eu tive um amor e era divino,
Logo descobri que estava perdendo minha cabeça.
Parecia como a coisa verdadeira mas eu estava tão cega,
Muita desconfiança,
O amor ficou lá atrás...

Entre "aquilo eu acho que é agradável"
e "estou me sentindo bem", o amor é tão confuso.
Não há paz de espírito se eu recear que estou perdendo você,
É simplesmente inútil você provocar como faz...

Perdida por dentro,
Adorável ilusão e não consigo esconder
Eu sou aquela que você está usando,
Por favor, não me ponha de lado.
Nós podíamos ter feito isso "caçando", sim.

Sim, viajando alto na luz verdadeira e azulada do amor.

Uma vez eu tive um amor e era um "estouro",
Logo se transformou para ser um "pé no saco".
Parecia como a coisa verdadeira,
Apenas para encontrar muita desconfiança.
O amor ficou lá atrás...
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