Eu estava com BB King na mente e até no toque no meu celular. Dudu, meu secretário e do Alan, um gay divertidíssimo e louco, conseguiu colocar The Thrill is gone no toque meu celular, que ganhei da Gazeta. É mais uma dessas geringonças modernas de última geração. Não o sabia usá-lo inteiramente. O máximo que conseguia era passar e-mails. Ao contrário da canção, eu estava eletrizada mais que Itaipu.
The Thrill Is Gone
The Thrill Is GoneThe thrill is gone
The thrill is gone away
The thrill is gone baby
The thrill is gone away
You know you done me wrong baby
And you`ll be sorry someday
The thrill is gone
It`s gone away from me
The thrill is gone baby
The thrill is gone away from me
Although, I`ll still live on
But so lonely I`ll be
The thrill is gone
It`s gone away for good
The thrill is gone baby
It`s gone away for good
Someday I know I`ll be open armed baby
Just like I know a good man should
You know I`m free, free now baby
I`m free from your spell
Oh I`m free, free, free now
I`m free from your spell
And now that it`s all over
All I can do is wish you well
VEJAM O REI BB KING CANTANDO ESSE BLUE COM ERIC CLAPTON E PHIL COLLINS
Já que fiz a besteira de me deixar levar pelo Paulo- nunca me envolvi com chefes e colegas do mesmo jornal-, iria jogar duro para conquistar uma polpuda aposentadoria e poder. Iria me transformar naquilo que mais odiava: uma legítima alpinista social. E obteria tudo o que estava borbulhando na minha mente. Era uma atitude kamikaze, um verdadeiro hara-quiri. Poderia explodir. Porém, iniciei uma game com Paulo para mostrar-me difícil e mais saborosa para o milionário filhinho de papai. Primeiro passo foi fingir que iria colocar um ponto final nessa história diante do argumento que ele me machucaria e me abandonaria em questão de tempo. Repetiria que estava certa que sairia ferida assim que ele enjoasse da sua nova aquisição e encontrasse um brinquedo novo. Vou fugir. Paulo tinha uma bula imensa de efeitos colaterais e adversos.
Meu retorno ao trabalho iniciou-se numa editoria que odeio: Caderno de Esportes. Como a Esfínge queria que eu passasse por todas as áreas de produção do jornal, iria editar ao lado de Greg. Ele estava se divertindo. Não escondi que não sei, não entendo e detesto tudo ligado ao esporte. Ele toca numa banda de blues. Não era coincidência. Tive aulas de canto em Brasília e as retomei no Rio. Sou completamente desafinada e, caso cantasse, espantaria todos. Consegui melhoras. Ele me convidou para assistir à sua banda num pub do Rio, em Botafogo, em um lugar escondido. Acho que é somente para iniciados. Aceitei o convite.
Comecei meu plano para deixar Paulo louco por mim. Para fugir dele, deixei meu celular com Dudu. Ficaria a maior parte do tempo fora da minha sala. Se o Paulo, dono do jornal, quisesse falar com a Suzana repórter especial, ligaria para a editoria de esportes. Dudu disse-me que Paulo havia me ligado cinco vezes no celular, na tarde de quinta-feira. Não retornei nenhuma ligação. Ele deveria estar puto. Será? Quando telefonou para o esporte, eu estava fora. Fui a um restaurante vegetariano para tomar uma sopa, antes que fechasse.
Quando abri a porta do meu apartamento, já passava de 1 hora da manhã. O telefone tocava. Deixei cair na secretária eletrônica. Em seguida, Paulo insistiu no celular da empresa. Não atendi. Depois, desliguei e deixei apenas o celular de Brasília ligado. Na redação, somente Alan e Dudu tinham o número. Dormi e acordei às 11 horas por causa de outra ligação do Paulo. Resisti. Dizia que iria para São Paulo. Passaria três dias por lá, cuidando da compra de um diário da capital e a possibilidade do grupo editar uma revista mensal de comportamento. Ele me disse uma dúzia de palavrões. Indagou o que estava acontecendo e o motivo da minha fuga. Mais. Disparou que odiava o meu comportamento. Coloquei uma legging e uma camiseta. Fui caminhar no calçadão. Aproveitei para almoçar uma salada. Cheguei ao jornal. Dudu foi me alertando que "doutor Paulo ligou para você umas três vezes e mandou ligar para ele" Alan ouvia com muita curiosidade. Eu disse que ninguém mandava em mim por que não sou escrava e que "esse dono de jornal fosse à merda".
Alan se espantou e me interrogou. Parecia delegado de polícia.
-Eu estou cheia...Não estou bem e não sei se quero ficar aqui e neste jornal.
-Aconteceu algo. Eu posso até imaginar, mas não vou nem falar. Você me bateria ou jogaria aquela cadeira no meu aquário. Já pensei que isso pudesse ocorrer. Fique calma. Não se envolva mais. Ao contrário daquilo que você enxerga em mim, eu não sou sacana e gosto de você. Na faça nenhuma besteira. Você é uma ótima profissional e uma mulher que certamente merece algo melhor. Não ponha caraminholas na cabeça. Só eu percebi o que se passa.
-Não sei.
Saí. Então, Alan já conhecia o meu segredo. Será que Paulo contou algo? Eu o mataria. Alan me paparicou, Chamou-me para sair, na quinta-feira. Aceitei. Iria chegar mais tarde na sexta por causa do fechamento da edição de final de semana. Aceitei. Antes de sair com mais um chefe, escrevi um e-mail para André Com cópia oculta para Jean Claude.
De: "suzanark24"
Para: Andre Bragança
Cópia:
Cópia Oculta: Jean Claude
Assunto:Je suis folle
André, estou doida, maluca, aloprada, tresloucada...Fiz em pouco mais de dois de meses tudo aquilo que deixei de fazer enquanto estive fora da grande mídia. Seu amigo Paulo e eu fomos para a cama. Conseguir colocar merda no meu próprio ventilador. Decidi tirar proveito dessa situação e conseguir todo o poder possível no jornal. Sei como funciona a cabeça dele, já comecei a jogar para que eu o atraia mais. O difícil é sempre mais saboroso. Posso até sair do jornal provisoriamente para conseguir o que almejo. Uma velha fonte minha, um clássico intelectual que conheci quando era foca, no Governo Sarney, chamou-me para chefiar um fundação de um grupo empresarial para democratizar a comunicação, como projetos de jornais comunitários em favelas de cinco capitais. Ganharia a mesma coisa, não teria as mordomias. Pretendo me tornar uma das mulheres mais poderosas da mídia. Você está me escondendo o quê? Não me contou como foi sua conversa com Paulo. Isso já tem mais de um mês. Um soco no olho, Suzana.
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