segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

SUI CAEDERE - O SUICÍDO

CAPÍTULO 7
BILLIE HOLIDAY - SOLITUDE


Solitude

Duke ellington / eddie delange / irving mills

In my solitude
You haunt me
With dreadful ease
Of days gone by

In my solitude
You taunt me
With memories
That never die

I sit in my chair
And filled with despair
There’s no one could be so sad
With gloom everywhere
I sit and I stare
I know that I’ll soon go mad

In my solitude
I’m afraid
Dear lord above
Send back my love





is that cocaine or table salt?

Ao entrar na redação da Gazeta, percebi que algo muito ruim havia acontecido. Alan, o manda-chuva, berrava e discutia com o editor de política. Ele estava realmente furioso e quase fora de si. Paralisou todos. Espantados, temerosos e incrédulos, o silêncio tomou conta.

-Esta mulher é doida. Tem Síndrome do Pânico, depressão...Precisa ser internada. Faltou ao plantão. Não deu explicações. Sumiu. Não atende nenhum telefonema. Quem ela pensa que é? A dona do jornal? Como vamos fazer para encher uma página inteira de jornal, tradição da Gazeta toda quarta-feira, com a série “Economistas sem economês?”. Ela disse que já estava com a matéria quase pronta. Eu a quero no olho da rua!

Fui direto para minha sala. Descobri que ele se referia a Lúcia. Pressenti que algo grave se passara com ela. Nos meus dois meses em que estou na Gazeta, percebi que é uma excelente repórter. Trabalha demais. Fica até tarde, mesmo depois do fechamento, adiantando seu trabalho. Alan foi injusto. Esperei ele se acalmar. Entrei na sala dele e fui logo me sentando. Fui suave porque sabia que ele podia ter outra explosão. Não tinha intimidade com Lúcia, mas não esqueço o carinho dela quando eu mesma quase tive uma crise de pânico, no banheiro, ao me preparar para o primeiro de muitos jantares com Paulo, o dono do pedaço.

-Alan, resolvo esse problema para você. Tenho três fontes que já concordaram em dar me entrevista pelo telefone e gravada. São nomes de peso. Já preparei perguntas úteis e divertidas para os nossos leitores. Posso fazer isso?

-Suzana, você já emagreceu de tanto trabalhar. Você é essencial para mim. Vou sobrecarregá-la ainda mais. Se você quiser fazer isso, tudo bem. Quer proteger a doida da Lúcia. Não quero você doente. Já falei para o Paulo que você está extrapolando. Vou fixar um horário para você entrar e sair. Você necessitará de equilíbrio físico e mental quando assumir Brasília e arrumar aquele salão de chá de mulherzinhas. Pode fazer, mas depois vai para casa descansar. Isso é uma ordem, ouviu mocinha? Dê a gravação para um dos rapazes da informática tirar.

-Está bem. Alan, a Lúcia não tem família no Rio e, pelo pouco convívio que tive com ela, percebi que é muito responsável. Alguma coisa aconteceu e não deve ser nada boa. Ela pode ter sido assaltada ou sofrido um acidente.

-Você virou advogada de defesa dela?

-Só acho que alguém deve ir até ao apartamento dela, tocar a campainha. Se não atender, chamar a polícia ou síndico para abrir a porta. Estou com um péssimo pressentimento. Mande o gaúcho fazer isso. Eles são muito amigos.

-Está bem.

Liguei para uma das minhas fontes. Coloquei-me no lugar da maioria dos leitores que não compreendem patavinas do que nossos repórteres escrevem pelo simples motivo de que eles também não sabem o que dizem aos coitados dos assinantes. Ficou ótimo. Alan adorou. Vai para a primeira página. Pedi que não colocasse meu nome. Não queria magoar a Lúcia.

-Nada disso mademoiselle. Vai com seu nome sim porque aqui não é casa de caridade ou filantropia. Foi a melhor entrevista que já vi nessa parte do jornal. Você merece. E mais ainda: vou assinar seu nome na primeira página.

-Não vou discutir com você. Não estou me sentindo bem. Estou com uma terrível enxaqueca e já vomitei várias vezes. Acho que minha pressão está baixa.

Ao me levantar para conversar com o editor de economia, eu senti um aperto no peito, na garganta e uma tontura. Não me lembro de mais nada. Quando acordei, estava deitada no sofá da sala do Alan. Fechei os olhos. Estava sonolenta. Senti que alguém segurava minha mão. Num esforço enorme, finalmente consegui abrir meus olhos e levei um susto. Era Paulo, branco como sofá.

-O que aconteceu? O que faço aqui?

-Você desmaiou por conta da sua mania de perfeição. Agora, vai comigo à Clínica São Vicente, nem que eu tenha que levá-la à força.

-Meu convênio não inclui isso. Esqueceu que não suas amigas milionárias?. Por favor, abra a minha bolsa, pegue minha agenda e procure o número da Goldencross. Veja qual é o pronto-socorro mais perto.

-Nada disso. Sou responsável pela sua vinda para o Rio e não sabia que você ficou maluca, trabalhando até 2 horas da manhã. Nesta semana, não quero ver você aqui. Estamos entendidos?

Tive que sair amparada por Paulo e Alan. Eu estava grogue e com dores por todo o corpo. Os dois me colocaram no carro de Paulo. Dormi. Despertei com um enfermeiro e Paulo me chamando. Uma cadeira de rodas me esperava. Estava com muito medo. Eu tenho fibromialgia. Estava bem. Caminhava todos os dias antes do trabalho e tinha acabado de comprar uma bicicleta ergométrica. Não podia ser castigada com crises fortes que não sofria há muito tempo.

Quatro médicos me avaliaram. Um neurologista, um reumatologista, um psiquiatra e um clínico geral. Fiz uma ressonância magnética na cabeça, exames de sangue e de urina. O diagnóstico: stress. Todos foram unânimes: - A senhora está muito estressada e, pelo que Paulo me contou, tem trabalhado como uma workaholic. Vai ficar três dias aqui. Vamos dar soro com suplementos e remédios para a dor. Um psicólogo fará sessões de duas horas todos os dias. Paulo já conseguiu 10 vidros de Lyrica e esse medicamento importado afastará novas crises.

Já sabia que a Lyrica foi o primeiro medicamento aprovado pelo FDA (Food and Drug Administration. Agência do Tio Sam que fiscaliza e regula a produção de remédios, alimentos e cosméticos)para o tramento da fibromialgia. Não há previsão de lançamento no Brasil e a importação é cara. Precisaria de doses altas nos momentos de crise muito fortes.

Paulo já havia pego minhas chaves e mandado sua secretária de confiança trazer roupas, pijamas, produtos de higiene. Minha única preocupação eram os meus pais. Eles não podiam saber disso. Minha mãe enlouqueceria de preocupação e os dois acabariam vindo para o Rio. Eu estava em quarto que parecia uma suíte de luxo de um hotel cinco estrelas. Levei um susto quando Paulo disse que já havia falado com meu pai para tranqüilizá-lo. Não contaria para minha mãe. Eu telefonaria todos os dias como se estivesse bem. Esse homem me surpreendia mais uma vez. Visitava-me antes de ir para o jornal. Dormiu como meu acompanhante as três noites que passei nessa clínica de rico. É uma caixinha de surpresas. Deixei o hospital com uma recomendação de uma semana de licença. Não concordei, mas não houve modo de alterar isso. Paulo me levou para meu apartamento e deixou "seu Chico", mordomo, cozinheiro, secretário e praticamente um membro da família, durante o dia comigo. Ele preparou pratos recomendados pela nutricionista. Acho que se surpreendeu com minha simplicidade. Logo no primeiro almoço que preparou, falei para ele colar mais um prato e talheres para comer comigo. Negou até eu ameaçar abrir uma garrafa de vinho porque estava me sentido só. Rendeu-se.

No primeiro dia, já eram 21 horas e esse ser humano gentil ainda estava no meu apartamento. Disse-lhe que podia ir. Ele respondia que tinha ordens de somente largar o serviço após a chegada “doutor Paulo”. O que estava acontecendo? Eu nunca fui tão mimada assim por um homem dessa forma. Não discuti e fui dormir. No meio da noite, acordei com sede. Paulo estava do meu lado e com os olhos bem abertos. Eu dei um pulo da cama.

_O que é Suzana? Não está se sentindo bem?

-Não é isso. Estou com muita sede e preciso fazer xixi.

-Vá ao banheiro que eu pego água para você.

- Por quê?

-Não entendi.

-Por que você está me tratando com tanta doçura?

-É o que tenho vontade de fazer.

-Perguntei por Lúcia e ele me deu uma resposta lacônica. Achei esquisito não encontrar nenhum jornal... Os médicos me proibiram de navegar na Internet. “Esqueça o mundo por uma semana”, disse o psiquiatra. E assim foi. Se for para descansar, não vi nenhum noticiário. Diverti-me com uma penca de DVDs com filmes policiais e comédias românticas que Paulo trouxera para mim. Eu e "seu Chico" demos boas gargalhadas. Ele fazia sucos e cortava frutas para nossas sessões. Percebi que ficava me vigiando. Não me deixava atender ao telefone e se deu ao direito de selecionar quem devia ou não falar comigo.

Colegas me ligaram para saber como eu estava. Todos tinham respostas esquisitas quando o assunto era Lúcia. Suspeitei que me escondessem algo. Insisti muito e Paulo não teve outro jeito. Deu-me a notícia que eu, no fundo, já suspeitava. Gaúcho tocou a campainha de Lúcia até incomodar os vizinhos. O celular estava desligado. Pediu ajuda a um amigo policial e um chaveiro abriu a porta. Lúcia estava morta há três dias. Foi encontrada nua, deitada em sua cama. Na mesa de cabeceira, inúmeros frascos de medicamentos de tarja preta, garrafas de vodka e uma seringa ao lado de papelotes de cocaína.

Não consegui chorar, falar. Quase desmaiei. Meu Deus, aquela mulher que fora tão doce e segura comigo tinha uma vida de pavor. Passou por várias operações. Tinha dores horríveis na coluna e era obrigada a tomar cortisona. Isso a fez viver um eterno efeito sanfona. Engordava, seguia para um spa. Ficava magra e linda, mas seus problemas de saúde exigiam remédios que retêm líquidos e engordam muito. Soube que ela era uma espécie de Maysa do jornalismo carioca. Teve inúmeras desilusões amorosas e já havia tentado se matar antes.

Era tão ética que chegou a pedir demissão sob o argumento de que não poderia fazer suas reportagens de economia porque se apaixonara por um poderoso ministro. O editor antecipou suas férias e conseguiu uma licença sem vencimentos. O ministro a abandonou assim que ela precisou retomar as drogas que a transformaram em uma baleia. Pior. Disse que ela não tinha vaidade e chegou ao cúmulo da agressão física. Pobre Lúcia! Brasília inteira sabia da bissexualidade desse crápula e de seus vícios que levariam qualquer outro cidadão para a cadeia se fosse pego numa blitz. Ele é movido à cocaína e acabou arrastando a indefesa e carente Lúcia.

No apartamento dela, a Polícia encontrou muita cocaína, LSD - Ácido lisérgico em forma de selo, com um enorme poder alucinógeno. Experimentei uma vez em Londres. Foi uma experiência horrível. Uma bad trip. Fiquei paranóica e achava que meu amigo queria me matar. Não podia crer que a própria Lúcia teria comprado tudo aquilo e matinha uma conexão com traficantes da classe média alta do Rio. Ligava-se e recebia-se a mercadoria em casa. Meu amigo André tem seu dealer, em Londres. É um jamaicano engraçado. Ele me dava de presente speeds e ácido. Eu repassava tudo para André.

O material da casa de Lúcia era explosivo. Além da variedade de drogas, havia fotos dos dois juntos, filmes com eles em Aspen, objetos de sex shop, incluindo um artefato conhecido por ser usado por mulheres para fazer sexo anal com seus parceiros. Tinha uma fita com os dois transando.

Paulo fez de tudo para que isso não viesse à tona, mas uma das revistas semanais mais importantes do país publicou uma extensa matéria sobre o assunto. Não foi por acaso. O dono da revista, conhecido por fazer extorsão com autoridades e empresários para não exibir reportagens comprometedoras nas suas páginas, deve ter sido bem pago para derrubar um dos mais poderosos ministros brasileiros que não estava agradando a muitos empresários da Fiesp. Foi o estopim para que os jornais populares do Rio e São Paulo explorassem o caso com muita maledicência. Não se sabe como, mas um deles publicou fotos de ambos em uma situação comprometedora. Sujaram a honra e a dignidade de Lúcia. Parecia que Brasília se tornara Londres.

Pela primeira vez, após a inédita publicação na mídia de um caso de um senador (Renan Calheiros) com uma jornalista (Mônica Veloso), o Brasil experimentava um escândalo sexual que lembrava o episódio John Profumo, ministro inglês da Defesa que teve que abandonar o cargo nos anos 60 ao se envolver com a prostituta Chistine Keeler. A moça, muito bonita, também tinha como cliente o adido militar soviético, Eugene Ivanov. Não é preciso dizer que as aventuras do ministro inglês sepultaram para sempre sua carreira política. O ministro brasileiro deposto desapareceu. E Lúcia virou puta, alpinista social, drogada. Tudo aquilo que ela nunca fora. Deixou-se levar por mais uma promessa de amor, ao longo de uma vida repleta de desenganos. Era mais fácil atacar a mulher. E o desgraçado do ministro? Era santo?

Paulo ligou para seu médico. Ele apareceu no meu apartamento e me deu um coquetel de sedativos. Sentia_ culpada. Poderia ter me aproximado mais dela. Sei o que é ser caluniada de forma violenta. Isso me abateu. Já tentei a mesma coisa há muito tempo por me importar com injúrias de mulheres ressentidas. Uma das piores veio de uma gaúcha que foi exportada para Brasília.

Durante um certo tempo, cobrimos a mesma área. Eu me divertia com ela falando ao telefone com o novo marido, então diretor de jornalismo de uma emissora de TV, conhecido nacionalmente como mau-caráter e sem escrúpulos. Ela o chamava de "meu torturador apaixonado". Depois, subiu feito um foguete e tornou-se secretária de redação em São Paulo, na sede do jornal, e nunca mais nos vimos.

Passei tempos sem ter notícias dela. Um belo dia, um grande amigo do peito me contou que teve que esbravejar, gritar, brigar por minha causa. Essa gaúcha sem o acolhimento e a graça de seus conterrâneos, começou a dizer que eu escrevia cartas eróticas para um dos criadores do Plano Real. Isso me feriu tanto...Fiquei uma semana sem trabalhar, com atestado médico. Não poderia mover uma ação por injúria, calúnia e danos morais. Colocaria meu amigo em risco de perder seu emprego. Ele já estava na mira para ser demitido se continuasse bebendo gim como se fosse água mineral.

Por causa dela, tentei tirar minha vida. Na época, não suportei o mal que ela me fez. Hoje, isso nem passa pela cabeça. Sou uma sobrevivente que quase naufragou. Amo a vida com tudo que ela me dá. Seja bom ou mau, sempre aproveito algo. Sou uma mulher livre e faço o que quiser. Que se danem as psicóticas, mitômanas e sociopatas. Acho que não há cura para esse tipo de gente. Muitas vezes me questiono se são doentes mentais ou maléficas.

Continuo com um defeito horroroso: eu me satisfaço com a vingança. Às vezes, penso que sou uma bruxa, pois meus inimigos acabam experimentando dissabores cruéis. Como essa gaúcha, que deveria ser internada em um manicômio, não foi diferente. Muito tempo depois, ela decidiu ser moderna e tirar férias de 50 dias (tinha folgas acumuladas) sem a companhia do seu homem e voou para à França. Não deu certo. Ela queria muito ter filhos, mas não conseguia a concordância do companheiro. Esse era mais um dos seus inúmeros casamentos e ele já tinha cinco mulheres para pagar pensão. Ao regressar dessa maravilhosa excursão pelo interior francês, visitando castelos e vinícolas famosas, uma desagradável surpresa: seu querido marido teve um caso com outra mulher. Não bastasse isso, era uma das repórteres que ela comandava. Pior ainda: a outra ficou grávida e decidiu não fazer um aborto, apesar da insistência do galinha.

Coitada, a gaúcha surtou. Quase morri de felicidade. Ela é ruim. Delicia-se com o mal que faz aos outros. É tão doentia que sente prazer em prejudicar os outros. Não tem charme. Parece um cachorro pequinês, com seu nariz sendo a mesma coisa do focinho da cão. Pouco depois, seu ex-marido casou novamente com uma bela e jovem repórter. Ela se transformou em uma das mais famosas jornalistas da televisão e sex symbol para a audiência masculina. Essa deusa deve atormentar a nefasta todas às noites em que aparece no vídeo.

O suicídio de Lúcia e o estrago que uma imprensa escrota fazia com sua integridade e decência como ser humano, lembrou-me aquilo que minha fracassada iniciativa de me matar por causa da maldade de humanos que parecem a encarnação do diabo em pessoa.

Desabafei com Paulo e dormi. Voltaria linda, gostosa, perfumada e com um legítimo vestido Gucci assim que retornasse ao trabalho. Eu mereço. Tenho certeza que Lúcia se sentiria homenageada por eu não ter tropeçado mais uma vez. Além disso, tomei uma decisão: iria aproveitar todo o poder que pudesse ter no jornal enquanto o playboy Paulo estivesse comigo. Cansei de ser santa e levar porrada. Desta vez, meu projeto era alto. Queria chegar à editora-executiva da Gazeta, ser parte do seu conselho editorial e ainda castigar muitos desafetos.

Na semana em que estive reclusa, escrevi um artigo para um outro jornal. Tive que implorar para que "seu Chico" não contasse nada para o Paulo. Precisava, necessitava e desejava tentar varrer o que estavam fazendo com ela. Liguei para a editora de uma das revistas femininas de maior circulação. Nunca a vi e nem a conheço. Pedi para que me deixasse escrever outro artigo sobre Lúcia. Nos dois casos, deixei claro que não queria nenhum dinheiro por isso. Deu certo, mas levei uma bronca enorme do Alan e do Paulo. Valeu. Fez-me bem ao meu espírito, meu corpo e minha alma. Eu fiquei em paz novamente. Enfrentaria um terremoto pela frente assim que fosse para Brasília como diretora.

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