WAGNER- CAVALGADA DAS VALKÍRIAS. ATO 3
Sou pontual. Cheguei à sede da Gazeta às 9 horas. Aliás, madruguei. Queria ler os jornais. Depois fui ver se o “gaúcho”, velho amigo e um dos editores, já havia chegado. Ao procurá-lo no imenso corredor do décimo andar, aquilo que eu mais temia aconteceu. Dei de cara com a Esfinge. Ainda bem que eu estava bonita. Não me fantasio de jornalista e detesto o desleixo delas ao se vestirem.
-Você não é a Suzana?
-Você sabe que sim, não é mesmo? Não mudei muito da última vez que nos encontramos.
-Você continua a mesma de sempre.
-Por que diz isso? Eu deveria ter medo de você por que me contratou como repórter especial, apesar das objeções de alguns editores pelo fato de ser uma excelente repórter, mais polêmica? Não conheço um publisher mais controverso que você.
-Conhece sim. Não seja mentirosa, disse às gargalhadas.
-É verdade. Aquele seu falso amigo deve sofrer de alguma psicose séria. Você leu seu último livro?
-É claro que não. Agora, ele está pensando em escrever peças de teatro. Venha à minha sala para conversarmos. A reunião com editores e repórteres especiais, como a madame aqui, começará somente às 11 horas. Suzaninha, carioca não acorda cedo.
Eu sabia que seria alvo de interrogatório da Gestapo, mas decidi responder a verdade a todas as suas perguntas.
-Quer um café, um suco, água?
_Tem chá? De Camomila.
-Então, a repórter competente e como fama de "doida" volta em grande estilo.
-Você é que está dizendo.
-O que você acha do jornal?
-A Gazeta perdeu sua identidade. A edição de política é horrível. A Sucursal de Brasília está superdimensionada. A qualidade de boa parte dos profissionais deixa a desejar. Não há um comando eficiente. Você paga um salário altíssimo para um repórter que não tem nenhuma fonte. Ele faz ensaios com base unicamente em material do Banco Central, Ipea e Receita Federal. Vale mantê-lo para ter esse lixo duas vezes por mês? E a outra que era queridinha daquela bicha que você mandou para Brasília? É mais um caso que não sei o que faz. Ela era estrela. Agora, nem tem mais carteira assinada e cobre coisas sem importância. Isso desestimula qualquer um. A Gazeta virou motivo de piada em Brasília porque tem três chefes de sucursal. Os parlamentares ficam doidos e perguntam quem manda mais. Você precisa enviar um interventor rápido e urgente para fazer uma limpeza geral. Fica quem produz. Repórter especial que acha que basta ficar com a bunda na cadeira, na redação, e não ir ao Congresso e outros organismos deve ser demitido.
-Você não medo mesmo de mim, não é?
-Não. O máximo que pode acontecer é você me mandar embora e eu entrar para o livro dos recordes: a repórter que entrou e saiu no mesmo dia. Como vocês podem publicar artigos e reportagens sobre o mesmo assunto em diferentes páginas? Ou o editor está bêbado ou é incompetente.
- Eu já estava pensando em fazer grandes alterações no jornal e contratei uma consultoria internacional. Nenhum editor sabe disso.
-Por que está me contando isso? Quer testar minha lealdade?
-Não. Eu sei que você não trai, mas a trouxe porque tenho um papel especial para você. Na hora certa, você saberá.
-Credo! Do jeito que você é mau, já vou começar a procurar um terreiro para me benzer!
-Suzana, conto com sua discrição para não falar como nos conhecemos.
- Foi em Londres, na casa do André, que estava servindo na Embaixada do Brasil. Foi um final de semana muito louco. Isso já tem quase dez anos e eu não me preocupo com a vida dos outros. Seu segredo está seguro.
-Você está melhor agora. Voltou ao corpo de foca. Fuja do editor de política e do Carlos. Tiveram caso com repórteres e um deles deu muito problema.
-Não tenho caso com chefes. Aliás, fiz todas as loucuras da minha geração na época certa. Estou calma e estou bem sozinha. Aposentei minhas penas. Não quero e não procuro qualquer tipo de relacionamento com o bicho homem no momento. Mas você deveria dar o exemplo, não acha?
-Deixa de ser impertinente, Suzana.
-Eu quero que você conheça o Alan ainda hoje. Terá que ser fora do jornal, mas ela será o próximo editor executivo e quer conversar com você.
-Está bem. Porém, não se esqueça que não entendo nada de cozinha de jornal. Gosto é de escrever. Nasci para ser repórter.
-Será bom para você que os dois se entendam. Eu farei o anúncio nos próximos dias.
-Então, desembarquei no meio de um passaralho?
-Sim.
-Carlos sabe de alguma coisa?
-Não. Vocês são amigos?
-Sim. Ficamos tempos sem nos ver, mas sabemos do amor que temos um pelo outro. Eu o aceito do jeito que ele é e não cobro atitudes. Preferiria que não tivéssemos tido essa conversa. Vai me deixar ansiosa e com sentimento de culpa.
-Deixa de ser certinha! Você é uma excelente profissional e esta é chance de você calar a boca daqueles idiotas de Brasília. Eu não deveria ter deixado você sair em 1989.
Batem na porta. É o Carlos! Fiquei gelada.
_Posso entrar, chefe?
-Sim.
-Me dá um abraço, sua danadinha. Sarah está louca para vê-la.
-É a única amiga judia e sionista que eu me permito ter. Depois dela, só o Babylon. Deixei de comprar uma marca de cosmético famosa porque é feita em Israel.
-Você deveria trabalhar para o Hamas, provoca a Esfinge.
-Posso ser do grupo e você não saber....
Seguiu-se um festival de risos. Não me lembro do que Carlos e a Esfinge conversaram, nem daquilo que eu disse. Acho que só falei sim ou não. Estava confusa, preocupada e sabia que estava no meio de um furacão. Vou submergir, o que é difícil para alguém que chega de Brasília para ser repórter especial, ligada diretamente ao dono do jornal. Discrição e nada de bares. Vou recusar convites para comemorações noturnas. Não me dou bem com o álcool e posso falar besteiras.
http://rpc.copygator.com/ping/






0 comentários:
Postar um comentário