segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

HOMO HOMINIS MALUS PEIOR PESSIMUS- OFERTA DIABÓLICA

CAPÍTULO 2
Um ano, seis meses e treze dias depois. Já vinte dois quilos mais magra e em terapia permanente. O Mercúrio não me fez bem. Aliás, quem fica muito por lá tem algum grave distúrbio psicológico, a começar pela dona do jornal, uma mitômana.

JOHN LEE HOOKER - SERVES ME RIGHT TO SUFFER


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Meu amado Claude,

Tenho novidades. Recebi uma proposta irrecusável da Gazeta do Rio. É um dos grandes quatro maiores jornais da Terra Brasilis. Eu já estava cheia de Brasília. Serei repórter especial. Irei a Brasília apenas para fazer matérias de fôlego e em outros lugares, inclusive a possibilidade de fazer reportagens internacionais sem o oba-oba da cobertura de eventos oficiais. Desconfio um pouco de tantas promessas, mas quem não arrisca, não petisca. Terei uma coluna semanal. Há uns presentinhos, chamados de bônus, que acabaram funcionando como um suborno para retornar ao Rio após tanto tempo. Ganharei um carro de luxo _ não me lembro nem da marca-, com um belo desconto obtido pelo jornal. Pagarei em suaves prestações. Não pesará no bolso. Porém, o que me seduziu mesmo foram as duas maravilhosas passagens internacionais da classe executiva que terei direito anualmente. Poderei transformá-las em praticamente quatro na classe econômica. Já pensou eu poder passar uns dias em Paris com você, nos feriados prolongados? Vou trabalhar em muitas dessas datas, por iniciativa própria, para ir à Europa quatro vezes por ano.

Já estou instalada em Copacabana, em um apartamento na Avenida Atlântida. É um prédio antigo. É de meu tio rico. Tenho sorte! Ele é meu padrinho e não me cobrará o aluguel. Pagarei o condomínio, e o IPTU, uma fortuna para o meu bolso, ele dividirá comigo. Têm alguns móveis antigos lá. Eu mesma pintei as paredes com cores alegres. A cozinha é vermelha. Fiz uma maratona em casas de móveis usados e meu apartamento está ficando legal, sem gastar muito. Contratei um senhor que transformou inteiramente as velharias do meu tio em peças únicas. Você vai amar quando me visitar. Copacabana é uma delícia porque todas as tribos convivem bem. É também um reduto gay, com muitas boates e bares até para os da chamada terceira idade.

O mandachuva da Gazeta tem fama de ter um comportamento meio esquizofrênico. Dizem que, ao falar conosco, do alto do seu pedestal, nunca encara os olhos do seu interlocutor.

Dizem que ele é um ditador. Porém, sei que jornalistas inventam, criam e espalham calúnias de profissionais que invejam. Só vendo para tirar minhas próprias conclusões. A forma como ele parece gostar de um profissional e, de repente, sem nenhuma razão aparente, transforma essa suposta admiração em humilhação, com seus comentários diretos e ferinos em reuniões de pauta, fazem dele um hitlerzinho. Descarta excelentes jornalistas sem hesitar. Esquece da dedicação e das inúmeras horas extras daqueles que foram seus colaboradores mais próximos.

Ele tem casos com editoras, coordenadoras e até uma pin-up girl, loira falsa, que testou a performance na cama de todos os chefes. Ela foi “exportada” para a Venezuela, onde expiou seus pecados e já está de volta. Com mais cultura, classe, sem a vulgaridade dessa femme fatale, uma editora foi parar em Londres. Teve um longo caso com o chefão; depois caiu nos braços, e na cama, do diretor para suplementos especiais; e terminou com o editor do jornal de domingo. Meus colegas mais antigos são cruéis. Dizem que essas jornalistas formam o pensionato do homem.

Segundo um amigo me disse, na última festa de final de ano, em uma badalada casa noturna na Barra, essa mulher sedutora, uma devoradora, apanhou da mulher do editor da edição de domingo. A “esposa” tomou vários dry martinis (um já me derruba) e começou a chamar a outra de todos os palavrões que conhecemos. Ela jogou uma garrafa em direção à moça, que por pouco conseguiu escapar. Quando todos fingiam que não havia acontecido nada e acreditávamos que o grande evento da noite já tinha se passado, a mulher pegou sua rival de surpresa. Deu-lhe várias tapas e socos. Chegaram a rolar no chão. Esse editor é um imbecil ou queria ver o circo pegar fogo. Deixou a festa arrastado pela mulher, depois de também levar uns tabefes. Bem feito!

Na segunda-feira seguinte a essa festa, na redação, todos pareciam idiotas, com cara de bunda e fazendo um teatro péssimo como se nada tivesse acontecido. Mas aconteceu. No mesmo dia, a Esfinge soltou uma circular informando que sua mais recente amante seria a correspondente em Manaus. Nossa, para quem sonhava agarrar um chefe, ganhar status no jornal, seu projeto implodiu. À noite, após o fechamento, meu amigo, foram todos comemorar a derrota dela. Ela não tinha nada de santa. Fazia intriga com todos, não usava métodos éticos e profissionais para obter seus furos. Se minha avó Maria estivesse viva, tenho certeza que ela diria que a moça tinha “furor uterino”.

Voltando ao meu chefão, ele agora adotou o estilo “Caras”. Troca de mulher como os novos ricos e alguns playboys, filhinhos de pais milionários, que fazem um revezamento entre si com as mais belas modelos e algumas atrizes. É impressionante como elas acabam passando pela cama de todos eles. O que elas querem? Fama instantânea, mordomia provisória, como viagens internacionais? Ou será que essas criaturas, que não ficam menos de uma semana sem um novo namorado, sempre com uma enorme conta bancária, sonham em se arrumar na vida nesse triatlom afetivo e sexual? Será que elas imaginam que esses herdeiros as levariam para o altar? Ora, rico casa com rico. Elas são pura diversão. Nem passa pela cabeça delas que homens as colecionam como um objeto podem ser, lá no fundo, misóginos?

Sua última aquisição apareceu nua na Playboy. Algum esperto e cretino vazou para revistas sensacionalistas fotos da moça sem os reparos fantásticos do photoshop. Foi destaque até nos telejornais da noite. Eu e milhares de mulheres reais adoramos. Afinal, a “deusa” tem celulite, estrias e flacidez. Como era de se esperar, ele engoliu em seco e, em nome de um suposto jornalismo imparcial, publicou as fotos no seu jornal, na seção dedicada às celebridades. É claro que o caso acabou e a viagem de férias à Toscana, com o pagamento já feito para o aluguel de uma vila, desejo da Top Model, foi para o espaço. Para ela. Ele embarcou com uma nova colunista de moda do jornal. Melhor do que isso seria impossível. Ela é declaradamente bissexual.

Sei que você vai gargalhar quando receber minha carta. Gosto da sua mania de manter uma correspondência epistolar, deixando e-mails para recados rápidos. Tenho certeza que a Esfinge irá a Paris em breve. Seu pai é amigo íntimo do embaixador e o filhote é um dos convidados do encontro entre empresários brasileiros e franceses. Não sei se sabe que o grupo da Esfinge não se restringe ao jornal. Eles têm uma holding que administra fábricas, destilarias, uma siderúrgica, uma rede de lojas populares e um sistema de TV a cabo.

Somente começarei na segunda-feira, mas já sei de tudo isso. Repórter não perdoa. Adora fofoca. Na verdade, conheci-o de forma menos formal, em Londres. Estava passando férias na casa do nosso amigo André. O resto somente contarei pessoalmente. Nós sabemos o que o André apronta quando decide começar o final de semana na sexta, emendar o sábado, e terminar com um brunch no domingo. Acho que isso pode me ajudar. Pois conheço facetas da Esfinge que ele não gostaria que se tornassem comentários maldosos na redação. Depois escrevo como foi, está legal?

Amor, Suzana.

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