Bem vindos ao meu romance sobre aquilo que os jornalistas costumam esconder e empurrar para baixo do tapete. Não tem nada de autobiográfico. Usei a primeira pessoa para escrever para dar força ao que conto. Quero desmascarar a mito em torno do jornalistas. Podem falar o que quiserem, não é Alice?

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

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JUDY, a character in ANONYMOUS ME

A NOVA VERSÃO DO ROMANCE DEADLINE JÁ ESTÁ NO AR. NÂO SOU A PERSONAGEM PRINCIPAL (SUZANA). ORA, ELA É A SOMA DE SEIS JORNALISTAS ALIADA À MINHA IMAGINAÇÃO .USO A PRIMEIRA PESSOA PARA DAR MAIS FORÇA À MINHA ESTÓRIA, COMPREENDEM? A






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sexta-feira, 2 de setembro de 2011

CORREÇÃO PERSONA-A MÁSCARA PARA SOBREVIVER EM UMA REDAÇÃO DE JORNAL Capítulo 4

PERSONA-A MÁSCARA PARA SOBREVIVER EM UMA REDAÇÃO DE JORNAL

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Depois da bomba que Paulo, nome da Esfinge, jogou no meu colo, tive que vestir uma máscara. Sentia mal escondendo algo grave e sério que afetaria a vida de muitos profissionais.

Fiquei praticamente muda na reunião de editores e repórteres especiais com o dono da Gazeta. Ao contrário da minha personalidade, aprendi que o silêncio é estratégico em determinadas situações.

Um editor fora de órbita sugeriu que eu fizesse uma matéria sobre o homossexualismo nas Forças Armadas. Foi o único momento em que me manifestei.

-Não faço isso de forma alguma. Já recebi essa pauta quando trabalhava no Mercúrio. Tive um trabalho danado, fui ameaçada na minha própria casa ...O esforço de mais de um mês foi para o lixo e fui humilhada em plena redação por um dos diretores da sucursal em Brasília. Disse que Bob, o publisher mais esquisito com quem já trabalhei, falara que aquilo que escrevi poderia ser tudo, menos jornalismo. Ele queria que eu desse nomes de supostos generais e coronéis envolvidos com homossexualidade. Ora, os militares têm uma política extremamente dura quanto a isso. Os oficiais são sumariamente passados para a reserva. O Bob que fosse a Brasília, fizesse a matéria, assinasse-a com seu nome de purpurina, colocasse o nome de todos e usasse os milhões do papaizinho para pagar as ações por injúria, calúnia, difamação e danos morais. Ele não sabe nada da área militar. Tem preconceito e não vou passar por isso de novo.

-Suzana, aqui não é o Mercúrio e não somos irrealistas. Sabemos das dificuldades. Se você não deseja fazer, vamos deixar para outra época, disse um dos editores.

Paulo me salvou: -Não vou desperdiçar o talento da Suzana com essa pauta fora da ordem. Eu já dei uma tarefa para ela nesta semana e ela não ficará disponível para nenhuma editoria.

Sei que isso poderia iniciar boatos de que eu seria a “nova queridinha”. Não me preocupo mais com isso. Agradeci os convites para comemorações noturnas. Usei o argumento de que ainda estava me acostumando com tantas mudanças e que uma boa noite de sono era tudo que eu precisava.



Como a Esfinge mandou, fui me encontrar com o misterioso Alan. Inicialmente, ele queria jantar no Antiquarius. Disse que adoro o restaurante, mas não para reuniões de trabalho. Como pouco à noite e, de preferência algo leve. Sugeri um restaurante japonês em Copacabana.
Cheguei cedo e tive que esperar esse maldito Alan por uma hora. Já estava indo embora quando ele chegou.

-Você não iria me esperar?

-Não. Acho extremamente grosseiro um homem fazer uma mulher esperar por ele tanto tempo em um restaurante, ainda mais por se tratar de absolutamente business. Para minha surpresa, conhecia aquele que conduziria a reforma do jornal.

-Você tem razão. Desculpe-me.

-Não sei o que estou fazendo aqui. Portanto, quero ouvir mais do que falar.

-Você já sabe do processo enorme de mudança que vai ocorrer na Gazeta. Vai haver demissões. Teremos um novo formato gráfico para o jornal. Seções mais ligadas ao dia-a-dia do consumidor. Não queremos mais aquelas matérias em economês. Desejamos textos mais explicativos e o impacto disso para o país e a vida do leitor. Teremos um caderno novo que circulará aos domingos.

-Estava na hora. A Gazeta é um jornal que fez história e está sem identidade. Uma diagramação suja. A sucursal de Brasília parece um paraíso para repórteres chapa -branca ou que desejam sombra e água fresca. Está cheia demais e com jornalistas ganhando fortunas e produzindo material sem qualidade. Não sei como o Paulo consentiu uma sucursal com três diretores. Aquilo virou a casa da mãe Joana.

-Concordo com você. Brasília será o alvo da primeira mudança e não será delicada. Bem, eu e Paulo decidimos que, nesse processo inicial, você vai ser minha assistente. Paulo vai dar um nome bonito para isso. Preciso da sua experiência em Brasília.

-Mas não tenho um milésimo do seu preparo e cursos sobre como fazer um jornal. Eu fiz um workshop com você.

-Sei disso. Foi a que teve a melhor performance. Já acertei com Paulo que, a partir de amanhã, trabalharemos juntos. Vou apresentá-la a algumas pessoas que trabalharão na Gazeta.

-Pensei que fosse ser apenas repórter.

-Você deveria se sentir orgulhosa por Paulo confiar em você. Não se preocupe. Vai dar certo. Você está menosprezando seu potencial. Você é um das mulheres mais inteligentes que conheço. É bom e ruim. A maioria dos brasileiros teme as que possuem um cérebro privilegiado. Agora, vamos deixar esse papo chato de lado. Você quer um saquê?

-Não. Estou de dieta e com enxaqueca.

-Você tem notícias da Viviane?

-Viviane? Nunca me passaria pela cabeça que você pudesse ser uma das suas vítimas. (Não consegui segurar o riso).

-É verdade que ela levou uma surra do Presidente do SDA?

-É. Teve que se esconder durante um mês na casa de praia do melhor amigo do espancador. Foi um enorme escândalo. Não foi só ela que apanhou de autoridades.

-E aí?

-Deveria cobrar por essa consultoria sexual sobre Viviane.

-Pensei que vocês fossem amigas.

-Também pensei.

-Ela ainda tem caso com o cara?

-Alan, o "cara" se separou da mulher e passou a circular, inclusive em viagens ao exterior com ela. Não foi um caso. Eles moraram juntos, entende? Como já era previsível, o político voltou para os braços da ex-mulher, que por sinal, mesmo mais velha que Viviane, é linda, classuda e muito inteligente. Eu a conheci.

-E por onde anda a Viviane?

-Não sei e tenho raiva de quem sabe. Se está tão interessado assim, contrate um detetive particular. As garras delas ainda marcam sua pele, não é mesmo?

-Isso não é da sua conta.

-Passou a ser após você fazer esse interrogatório idiota para uma profissional que vai trabalhar com você e mal o conhece. Deixe- me colocar os pontos nos “is”. Vou me esforçar ao máximo para que tenhamos um bom relacionamento profissional e fazer aquilo que o Paulo espera de mim. É só isso. Não significa que vamos ser amigos e trocar confidências. Pode até acontecer, mas acho muito difícil.

-Por quê?

-Não gostei da forma que você está conduzindo essa conversa. Não sou fiscal da vida sexual de ninguém.

-Você está certa. Perdoe-me. Vejo que você sabe se impor. Gosto disso. Nós começamos a trabalhar ao meio dia, sem hora para terminar. Paulo deve fazer o anúncio das mudanças dentro de quinze dias. Você não quer mesmo tomar um drink em outro lugar?

-Não. Acabamos por hoje?

-Sim.

-Ótimo. Moro aqui perto e vou caminhando.

-Não prefere que eu a leve?

-De forma alguma. Meu apartamento é perto e não tenho medo da fauna da Avenida Atlântica. Já cumprimento as putas que fazem ponto perto do meu prédio. Elas são minha segurança.

Cheguei ao meu apartamento com uma enorme dor na nuca de tensão. Preciso localizar o André. Não me importa quanto esse DDI vai custar. Vou acordá-lo. Que segredo eu guardo do Paulo? Eu disse aquilo por pura intuição. Fiquei chocada com os tentáculos da Viviane, uma autêntica oportunista. É uma falsa, sem caráter algum. Fez e faz qualquer coisa para conseguir aquilo que deseja. Se ela escrevesse um diário de alcova, seria um verdadeiro best seller ao narrar os tipos de homem que passaram pela sua cama.

Acordei André em Londres. De madrugada. Ele faz o mesmo comigo. Falei das novidades e perguntei o que aconteceu naquele final de semana infernal, no qual uma simples repórter, um diplomata rico, de uma família tradicional, e um dono de jornal aprontaram todas.

André ficou surpreso. E me perguntou se eu não lembrava mesmo. A resposta dele quase me fez cair da poltrona. Você e Paulo dançaram o tempo todo, sempre juntos, em uma das salas vips de um dos clubes mais caros de Londres. Pagou inúmeras garrafas de Cristal por que você disse que nunca as tinha tomado. Saí da sala Vip e caí na gandaia com amigos que estavam no clube. Quando voltei, encontrei vocês dois se beijando sem parar. Não se preocupe por que não aconteceu nada de mais. Você se recusou a passar a noite no Ritz com ele. Disse que ele lhe dava medo. Ele insistiu muito, mas você voltou para casa comigo. Você uma das poucas mulheres que lhe disse não.

Ele apareceu de surpresa alguns dias depois. Trouxe chocolate belga e garrafas de Cristal. Você não estava e ele partiu no dia seguinte. Não se torture por isso. Vou ligar para ele hoje e sondar o ambiente. Se ele a contratou, obviamente, é por que a respeita como profissional. Continue posando de lady. Sei que você não vai conseguir dormir. Tome uns dois comprimidos de calmante e esqueça tudo isso. Você já foi muito castigada e maltratada pelos invejosos. No fundo, Su, ele deve ter um tipo de afeto por você, mas mantenha a sua postura profissional. Sei que ele não é o homem que você gostaria de ter na sua cama.

Meu Deus! Meu passeio pelo Wild Side envolveu a Esfinge. E eu pensava que o segredo dele poderia ser speeds e ácidos que poderia ter consumido. Não me senti culpada. Não sei explicar o motivo. Beijar na boca faz bem. Graças a Deus, Iemanjá, São Jorge, Santo Antônio, Buda, Shiva, Nossa Senhora da Aparecida, Alá ...conservei um pouco de lucidez.

domingo, 12 de junho de 2011

METUS-O MEDO DO NOVO

CAPÍTULO 3

48 - Danger Danger! High Voltage!

Sou pontual. Cheguei à sede da Gazeta às 9 horas. Aliás, madruguei. Queria ler os jornais. Depois fui ver se o “gaúcho”, velho amigo e um dos editores, já havia chegado. Ao procurá-lo no imenso corredor do décimo andar, aquilo que eu mais temia aconteceu. Dei de cara com a Esfinge. Ainda bem que eu estava bonita. Não me fantasio de jornalista e detesto o desleixo delas ao se vestirem.

-Você não é a Suzana?

-Você sabe que sim, não é mesmo? Não mudei muito da última vez que nos encontramos.

-Você continua a mesma Suzana de sempre.

-Por que diz isso? Deveria ter medo de você por que me contratou como repórter especial, apesar das objeções de alguns editores pelo fato de ser uma excelente repórter, mais polêmica? Não conheço um publisher mais controverso que você.

-Conhece sim. Não seja mentirosa, disse às gargalhadas.

-É verdade. Aquele seu falso amigo deve sofrer de alguma psicose séria. Você leu seu último livro?

-É claro que não. Agora, ele está pensando em escrever peças de teatro. Venha à minha sala para conversarmos. A reunião com editores e repórteres especiais, como a madame aqui, começará somente às 11 horas. Suzaninha, carioca não acorda cedo.

Sabia que seria alvo de interrogatório da Gestapo, mas decidi responder a verdade a todas as suas perguntas.

-Quer um café, um suco, água?

_Tem chá? De Camomila.

-Então, a foca volta em grande estilo.

-Você é que está dizendo.

-O que você acha do jornal?

-A Gazeta perdeu sua identidade. A edição de política é horrível. A Sucursal de Brasília está superdimensionada. A qualidade de boa parte dos profissionais deixa a desejar. Não há um comando eficiente. Pagamos um salário altíssimo para um repórter que não tem nenhuma fonte. Ele faz ensaios com base unicamente em material do Banco Central, Ipea e Receita Federal. Vale mantê-lo para ter esse lixo duas vezes por mês? E a outra que era queridinha daquela bicha que você mandou para Brasília? É mais um caso que não sei o que faz. Ela era estrela. Agora, nem tem mais carteira assinada e cobre coisas sem importância. Isso desestimula qualquer um. A Gazeta virou motivo de piada em Brasília porque tem três chefes de sucursal. Os parlamentares ficam doidos e perguntam quem manda mais. Você precisa enviar um interventor rápido e urgente para fazer uma limpeza geral. Fica quem produz. Repórter especial que acha que basta ficar com a bunda na cadeira, na redação, e não ir ao Congresso e outros organismos, deve ser demitido.

-Você não tem medo mesmo de mim, não é?

-Não. O máximo que pode acontecer é você me mandar embora e entrar para o livro dos recordes: a repórter que entrou e saiu no mesmo dia. Como vocês podem publicar artigos e reportagens sobre o mesmo assunto em diferentes páginas? Ou o editor está bêbado ou é incompetente.

- Eu já estava pensando em fazer grandes alterações no jornal e contratei uma consultoria internacional. Nenhum editor sabe disso.

-Por que está me contando isso? Quer testar minha lealdade?

-Não. sei que você não trai, mas a trouxe porque tenho um papel especial para você. Na hora certa, você saberá.

-Credo! Do jeito que você é mau, já vou começar a procurar um terreiro para me benzer!

-Suzana, conto com sua discrição para não falar como nos conhecemos.

-Já tinha me esquecido disso. Foi em Londres, na casa do André, que estava servindo na Embaixada do Brasil. Foi um final de semana muito louco. Isso já tem quase dez anos e não me preocupo com a vida dos outros. Seu segredo está seguro.

-Você está melhor agora. Voltou ao corpo de foca. Fuja do editor de política e do Carlos. Tiveram caso com repórteres e um deles deu muito problema.

-Não tenho caso com jornalistas. Aliás, eu fiz todas as loucuras da minha geração na época certa. Estou calma e estou bem sozinha. Aposentei minhas penas. Não quero e não procuro qualquer tipo de relacionamento com o bicho homem no momento. Mas você deveria dar o exemplo, não acha?

-Deixa de ser impertinente, Suzana.

-Quero que você conheça o Alan ainda hoje. Terá que ser fora do jornal, mas ela será o próximo editor executivo e quer conversar com você.

-Está bem. Porém, não se esqueça que não entendo nada de cozinha de jornal. Gosto é de escrever. Nasci para ser repórter.

-Será bom para você que os dois se entendam. Farei o anúncio nos próximos dias.

-Então, eu desembarquei no meio de um passaralho?

-Sim.

-Carlos sabe de alguma coisa?

-Não.Vocês são amigos?

-Sim. Ficamos tempos sem nos ver, mas sabemos do amor que temos um pelo outro. Eu o aceito do jeito que ele é e não cobro atitudes. Preferiria que não tivéssemos tido essa conversa. Vai me deixar ansiosa e com sentimento de culpa.

-Deixa de ser certinha! Você é uma excelente profissional e esta é chance de você calar a boca daqueles idiotas de Brasília. Eu não deveria ter deixado você sair em 1989.

Batem na porta. É o Carlos! Fiquei gelada.

_Posso entrar, chefe?

-Sim.

-Me dá um abraço, sua danadinha. Sarah está louca para vê-la.

-É a única amiga judia e sionista que eu me permito ter. Depois dela, só o Babylon. Deixei de comprar uma marca de cosmético famosa porque é feita em Israel.

-Você deveria trabalhar para o Hamas, provoca a Esfinge.

-Posso trabalhar e você não saber....

Seguiu-se um festival de risos. Não me lembro do que Carlos e a Esfinge conversaram, nem daquilo que eu disse. Acho que só falei sim ou não. Estava confusa, preocupada e sabia que estava no meio de um furacão. Vou submergir, o que é difícil para alguém que chega de Brasília para ser repórter especial, ligada diretamente ao dono do jornal. Discrição e nada de bares. Vou recusar convites para comemorações noturnas. Não me dou bem com o álcool e posso falar besteiras.

Pearl Jam On The Late Show w/ Letterman singing "Masters of war" from Bob Dylan

terça-feira, 7 de junho de 2011

HOMO HOMINIS MALUS PEIOR PESSIMUS- OFERTA DIABÓLICA

Elroy, Devil's Lake oct 2004 030

CAPÍTULO 2
Um ano, seis meses e treze dias depois. Já vinte dois quilos mais magra e em terapia permanente. O Mercúrio não me fez bem. Aliás, uem Quem fica muito por lá tem algum grave distúrbio psicológico, a começar pela dona do jornal, uma mitômana.

Estava melhor . Precisava decidir o que fazer da vida. Mas ela preparou um surpresa para mim. O inesperado bateu à minha à
minha porta. Recebi um convite para voltar à grande imprensa em alto estilo. Aceitei porque seria minha vingança. Vou jogar
sujo, mas ainda comandarei uma redação.

Mandei um e-mail para meu melhor amigo já instalada no Rio.


JOHN LEE HOOKER - SERVES ME RIGHT TO SUFFER



Meu amado Claude,

Tenho novidades. Recebi uma proposta irrecusável da Gazeta do Rio. É um dos grandes quatro maiores jornais da Terra Brasilis. Eu já estava cheia de Brasília. Serei repórter especial. Irei a Brasília apenas para fazer matérias de fôlego e em outros lugares, inclusive a possibilidade de fazer reportagens internacionais sem o oba-oba da cobertura de eventos oficiais. Desconfio um pouco de tantas promessas, mas quem não arrisca, não petisca. Terei uma coluna semanal. Há uns presentinhos, chamados de bônus, que acabaram funcionando como um suborno para retornar ao Rio após tanto tempo. Ganharei um carro de luxo _ não me lembro nem da marca-, com um belo desconto obtido pelo jornal. Pagarei em suaves prestações. Não pesará no bolso. Porém, o que me seduziu mesmo foram as duas maravilhosas passagens internacionais da classe executiva que terei direito anualmente. Poderei transformá-las em praticamente quatro na classe econômica. Já pensou eu poder passar uns dias em Paris com você, nos feriados prolongados? Vou trabalhar em muitas dessas datas, por iniciativa própria, para ir à Europa quatro vezes por ano.

Já estou instalada em Copacabana, em um apartamento na Avenida Atlântida. É um prédio antigo. É de meu tio rico. Tenho sorte! Ele é meu padrinho e não me cobrará o aluguel. Pagarei o condomínio, e o IPTU, uma fortuna para o meu bolso, ele dividirá comigo. Têm alguns móveis antigos lá. Eu mesma pintei as paredes com cores alegres. A cozinha é vermelha. Fiz uma maratona em casas de móveis usados e meu apartamento está ficando legal, sem gastar muito. Contratei um senhor que transformou inteiramente as velharias do meu tio em peças únicas. Você vai amar quando me visitar. Copacabana é uma delícia porque todas as tribos convivem bem. É também um reduto gay, com muitas boates e bares até para os da chamada terceira idade.

O mandachuva da Gazeta tem fama de ter um comportamento meio esquizofrênico. Dizem que, ao falar conosco, do alto do seu pedestal, nunca encara os olhos do seu interlocutor.

Dizem que ele é um ditador. Porém, sei que jornalistas inventam, criam e espalham calúnias de profissionais que invejam. Só vendo para tirar minhas próprias conclusões. A forma como ele parece gostar de um profissional e, de repente, sem nenhuma razão aparente, transforma essa suposta admiração em humilhação, com seus comentários diretos e ferinos em reuniões de pauta, fazem dele um hitlerzinho. Descarta excelentes jornalistas sem hesitar. Esquece da dedicação e das inúmeras horas extras daqueles que foram seus colaboradores mais próximos.

Ele tem casos com editoras, coordenadoras e até uma pin-up girl, loira falsa, que testou a performance na cama de todos os chefes. Ela foi “exportada” para a Venezuela, onde expiou seus pecados e já está de volta. Com mais cultura, classe, sem a vulgaridade dessa femme fatale, uma editora foi parar em Londres. Teve um longo caso com o chefão; depois caiu nos braços, e na cama, do diretor para suplementos especiais; e terminou com o editor do jornal de domingo. Meus colegas mais antigos são cruéis. Dizem que essas jornalistas formam o pensionato do homem.

Segundo um amigo me disse, na última festa de final de ano, em uma badalada casa noturna na Barra, essa mulher sedutora, uma devoradora, apanhou da mulher do editor da edição de domingo. A “esposa” tomou vários dry martinis (um já me derruba) e começou a chamar a outra de todos os palavrões que conhecemos. Ela jogou uma garrafa em direção à moça, que por pouco conseguiu escapar. Quando todos fingiam que não havia acontecido nada e acreditávamos que o grande evento da noite já tinha se passado, a mulher pegou sua rival de surpresa. Deu-lhe várias tapas e socos. Chegaram a rolar no chão. Esse editor é um imbecil ou queria ver o circo pegar fogo. Deixou a festa arrastado pela mulher, depois de também levar uns tabefes. Bem feito!

Na segunda-feira seguinte a essa festa, na redação, todos pareciam idiotas, com cara de bunda e fazendo um teatro péssimo como se nada tivesse acontecido. Mas aconteceu. No mesmo dia, a Esfinge soltou uma circular informando que sua mais recente amante seria a correspondente em Manaus. Nossa, para quem sonhava agarrar um chefe, ganhar status no jornal, seu projeto implodiu. À noite, após o fechamento, meu amigo, foram todos comemorar a derrota dela. Ela não tinha nada de santa. Fazia intriga com todos, não usava métodos éticos e profissionais para obter seus furos. Se minha avó Maria estivesse viva, tenho certeza que ela diria que a moça tinha “furor uterino”.

Voltando ao meu chefão, ele agora adotou o estilo “Caras”. Troca de mulher como os novos ricos e alguns playboys, filhinhos de pais milionários, que fazem um revezamento entre si com as mais belas modelos e algumas atrizes. É impressionante como elas acabam passando pela cama de todos eles. O que elas querem? Fama instantânea, mordomia provisória, como viagens internacionais? Ou será que essas criaturas, que não ficam menos de uma semana sem um novo namorado, sempre com uma enorme conta bancária, sonham em se arrumar na vida nesse triatlom afetivo e sexual? Será que elas imaginam que esses herdeiros as levariam para o altar? Ora, rico casa com rico. Elas são pura diversão. Nem passa pela cabeça delas que homens as colecionam como um objeto podem ser, lá no fundo, misóginos?

Sua última aquisição apareceu nua na Playboy. Algum esperto e cretino vazou para revistas sensacionalistas fotos da moça sem os reparos fantásticos do photoshop. Foi destaque até nos telejornais da noite. Eu e milhares de mulheres reais adoramos. Afinal, a “deusa” tem celulite, estrias e flacidez. Como era de se esperar, ele engoliu em seco e, em nome de um suposto jornalismo imparcial, publicou as fotos no seu jornal, na seção dedicada às celebridades. É claro que o caso acabou e a viagem de férias à Toscana, com o pagamento já feito para o aluguel de uma vila, desejo da Top Model, foi para o espaço. Para ela. Ele embarcou com uma nova colunista de moda do jornal. Melhor do que isso seria impossível. Ela é declaradamente bissexual.

Sei que você vai gargalhar quando receber minha carta. Gosto da sua mania de manter uma correspondência epistolar, deixando e-mails para recados rápidos. Tenho certeza que a Esfinge irá a Paris em breve. Seu pai é amigo íntimo do embaixador e o filhote é um dos convidados do encontro entre empresários brasileiros e franceses. Não sei se sabe que o grupo da Esfinge não se restringe ao jornal. Eles têm uma holding que administra fábricas, destilarias, uma siderúrgica, uma rede de lojas populares e um sistema de TV a cabo.

Somente começarei na segunda-feira, mas já sei de tudo isso. Repórter não perdoa. Adora fofoca. Na verdade, conheci-o de forma menos formal, em Londres. Estava passando férias na casa do nosso amigo André. O resto somente contarei pessoalmente. Nós sabemos o que o André apronta quando decide começar o final de semana na sexta, emendar o sábado, e terminar com um brunch no domingo. Acho que isso pode me ajudar. Pois conheço facetas da Esfinge que ele não gostaria que se tornassem comentários maldosos na redação. Depois escrevo como foi, está legal?

Amor, Suzana.

sábado, 14 de maio de 2011

VIA CRUCIS-O DIABÓLICO PUBLISCHER

CAPÍTULO 1


I THIRST SAY JESUS CHRIST DICE JESUS CRISTO YO TENGO SE                               POR: PEDRO


Sinto meu corpo cansado. Estou indisposta apesar de ter dormido mais de 12 horas. A depressão dá os seus sinais. É segunda-feira, pior dia para mim. Significa que contarei dia após dia até chegar sexta-feira, à noite, e me livrar dos horrores da redação. São 11h30. Já perdi a maldita reunião de pauta. É uma merda. Parece um grupo de teatro amador. Todos os atores desempenham seu papel muito mal. Cada um mostra sua persona. Porém, muitas vezes, as máscaras caem. É um espanto! Deparamos com um colega totalmente diferente da sua usual representação. Já perdi mesmo a reunião. Volto a dormir ao som de Madame Butterfly, com Maria Callas. Minha vida está tão trágica quanto as óperas. Sempre invento uma desculpa para essas reuniões. Não gosto deste jogo escondido de esgrima, com inúmeros floretes assassinos no ar.

Acordei tarde, quase 14h. Tomei banho e fiz aquilo que eu odeio há algum tempo: ir à sucursal de Brasília do jornal Mercúrio. Sinto-me uma estrangeira no meio de alpinistas sociais, farsantes, reprimidos sexualmente que não saem do armário e muitas mulheres preocupadas demais com a minha vida, meu trabalho, minhas fontes...
Não me enquadro naquela escolinha em que recebemos notas como se ainda fôssemos crianças e tivéssemos que apresentar o boletim em casa. E o "professor" não é sempre justo. Usa outros critérios além do desempenho profissional. Nesse jogo, sempre perdi.Nunca dormi com nenhum chefe em toda a minha carreira. Já outras...

O problema é que a "professor" que nos avalia é bem diferente daqueles da nossa infância. A apreciação é feita por chefes que nem sempre usam critérios objetivos e éticos. Outros componentes podem entrar, como uma repórter cortejar um coordenador, dormir com o secretário de redação, até chegar ao diretor da sucursal. Há especialistas nisto. Selena era uma delas. Teve um caso com um chefe, casado, mas acabou se unindo matrimonialmente com um repórter. Que coisa cafona, mas o convite foi assim! Coitada, seu projeto de subir socialmente naufragou! Seu marido a trocou por uma modelo.

Antes de conhecer Selena e saber quem ela era, disse aos meus colegas que este nome não cheirava bem. Não é que eu acertei! Ela implicava comigo o tempo todo. Falava, pelas minhas costas, que eu bebia demais, que meu corte de cabelo curto era para mulheres bonitas _como se ela fosse uma beldade com aquela face enrugada precocemente, olhos de rato e o cabelo parecendo bombril, com luzes feitas em salão de quinta_ e indagou-me se eu não ficava deprimida, estando gorda, ao ler revistas tipo Boa Forma, Pense Leve, Dietas Já e outras do mesmo gênero.Lamento desapontá-la Selena, mas eu perdi 22 quilos. Joguei-lhe uma praga. Deu certo. Ela não conseguia permanecer por muito tempo nos vários jornais. Casou-se com um diplomata e vive hoje fora do Brasil, na África.

Acabo de chegar de uma longa viagem pela Europa: 20 dias na Itália porque não me canso de Roma, Capri, Veneza e Florença; e mais um mês em Londres. Adoro a cidade da rainha. Graças a um amigo gay e diplomata, conheci uma cidade que os turistas brasileiros jamais imaginam existir. Clubes fechados e restritos aos connaisseurs. Não possuem placa ou qualquer sinalização na porta indicando que ali funciona uma disco, um pub, um bar para sadomasoquistas e outras infinitas possibilidades. Algumas vezes, esses clubes mudam de lugar, mas os vips sempre sabem onde é a nova rota.

Foi uma das melhores viagens de minha vida. Assim que entrei no táxi, em Londres, em direção a Heathrow, senti uma vontade enorme de chorar e um medo terrível se apossou de mim. Enquanto aguardo meu vôo, comprei maquiagem no Duty Free e fui jantar em um bom restaurante. Uma taça de champanhe e salmon com fritas, encerrando com um belo capuccino. Detesto comida de avião da classe econômica.

Ao sentar na minha poltrona, ao lado de um casal, comecei a chorar sem parar. Eles eram ingleses e manifestaram paciência para ouvir minha triste história. Estive no exterior e não me sentira nem um pouco estrangeira. Agora, na volta ao meu país e ao nojento e asqueroso emprego no Mercúrio, inicia-se a sensação de que sou uma forasteira.

Tanta infelicidade me lançou em um processo de autodestruição. Consegui a façanha de ficar 22 quilos acima do peso. Sempre fui magra, mas o Mercúrio engorda. Muita gordura resultante dos "anestésicos" que usava: bebida alcoólica, exagero em doces e massas, ansiedade e um vazio que nada nem ninguém preenchiam. Sabia que precisava parar com tudo, sobretudo com o asfixiante trabalho naquele jornal, que eu nunca lia e somente passei a fazê-lo quando fui contratada. Era "o maior jornal da América Latina", diziam os inúmeros comerciais nas TVs e rádios.

Naquela época, o Mercúrio tinha prestígio, apesar das maluquices da filha do dono do diário, a temida e também odiada dona Rose. Claramente bipolar ou até psicótica, tinha ondas de amor e ódio por seus assistentes. Muitos acabavam na sua cama. O caso durava pouco. O infeliz era despachado para bem longe após o final do affair. Um estacionou no Japão.

Na redação, a primeira pessoa que encontrei foi Bob, que acabara de ser promovido a chefe. Foi mais um farsante que conheci. O antigo diretor o detestava e o premiava com péssimas avaliações. Bob passou a me bombardear. Nem ligava mais para o trabalho. Conscientemente, preparava minha saída.

O dia e a oportunidade certos chegaram numa terça-feira à noite. O caolho Bob me telefona às 22 horas para me informar que eu passaria a ser responsável pela cobertura de uma área que detesto e que possui uma sala de imprensa mais parecida com um manicômio. Só faltava uma camisa-de-força.

Recebi aquela notícia com tanto alívio que chorei ao telefone falando com aquele imbecil. Chegara a hora de morrer para renascer de novo. Pedi demissão. Pouco tempo depois, ligou a bicha Wandeca, meu grande amigo. Ele estava nervoso e preocupado. Foi logo berrando "O que você aprontou? O homem quer você, aqui, na redação, às 10 horas e sem atraso". Eu disse:"Calma Wandeka! Eu não lhe avisei que qualquer dia pediria demissão. Acabei de fazê-lo." Acrescentei que não iria a nenhuma reunião, não colocaria mais os pés naquela redação e se ele (Wandeca) quisesse me ver, que me fizesse uma visita.

Wandeca perguntou seu eu estava bêbada, drogada ou se tinha pirado de vez. Após muitas gargalhadas, expliquei que tinha recuperado minha razão e que drogas não eram a minha especialidade. Wandeka era entendido no assunto.

A bicha querida acabou concordando comigo. Wandeka mandou um motorista do Mercúrio pegar minha carta de demissão no dia seguinte. Arrogante que é, sei que dona Rose me chamou de ingrata por abandonar o seu glorioso Mercúrio sem dar satisfação a ninguém e recusar os pedidos para conversar com o diretor para ficar.

O mais difícil começou no dia em que meus laços foram totalmente quebrados com aquela forma horrenda de fazer jornalismo. Pediram que apresentasse um atestado de sanidade física e mental. Essa Dona Rose acreditava que eu estava tendo um surto ao sair do jornal. Eles estão acostumados a demitir. Porém, quando uma profissional conceituada e escolhida por eles para ser correspondente no exterior durante um ano como eu realmente fui decide mandá-los às cucuias, a cúpula a classifica de desiquilibrada. Se dependesse de Dona Rose, nós teríamos que pagar uma espécie de tributo por ela nos deixar trabalhar no jornal.

MARIA CALLAS CANTA MADAME BUTTTERFLY, DE PUCCINI "TU,TU,, PICCOLO IDDIO"


Eu estava finalmente livre, depois de quase dez anos de Mercúrio. Eu precisava reinventar minha vida. Quem era Suzana Barreto Viotti? Não imaginava a resposta. Sabia que meu caminho não seria fácil, mas certamente mais saboroso do que trabalhar em um ambiente onde os próprios chefes jogam seus repórteres uns contra os outros, estimulando uma competitividade pouco produtiva. Peguei do Mercúrio tudo que me serviria para continuar na estrada do jornalismo. Quando saí, abandonei um enorme fardo que carregava nas costas. Era o jogo do Mercúrio que não prestava para mim.





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